Trago este debate ao nosso bate-papo virtual de todos os meses devido ao tema ter se tornado a dúvida mais freqüente nas consultas e nas nossas reuniões de grupo. O tema é intrigante na medida que pode decidir o futuro de cada paciente, motivando discussões acaloradas também nas redes sociais da nossa clínica. Na tentativa de ampliar o esclarecimento e ajudar a fomentar as discussões decidi escrever melhor sobre o assunto.

Há pouco mais de seis anos surgiu uma nova técnica para o tratamento cirúrgico da obesidade conhecida pelos cirurgiões como “Gastrectomia Vertical” que traduz a retirada de parte do estomago no seu sentido vertical e que ganhou o nome mais popular de “SLEEVE” justamente pelo aspecto final do estomago se parecer uma manga de camisa, ou seja , mais afilado e comprido.

Na realidade este procedimento fazia parte de uma técnica cirúrgica de obesidade mais complexa chamada de Duodenal Switch , indicada para pacientes “super-obesos”. Acontece que nos EUA, pelo elevado risco que este grupo de pacientes apresenta, o “Duodenal Switch” é realizado em 2 etapas distintas, sendo primeiro o “SLEEVE” e após seis meses ou um ano, já mais emagrecido e com um risco reduzido, é realizado a complementação da técnica com a parte intestinal do procedimento.

A observação de que muitos pacientes apresentavam um excelente resultado em perda de peso e recuperação da saúde e qualidade de vida apenas com a primeira etapa, ou seja, com o “SLEEVE”, levou os cirurgiões a realizarem uma série de estudos científicos provando que apenas este poderia ser realizado como técnica única para o tratamento da obesidade. No ano de 2008 então, o SLEEVE surge como técnica mundialmente aceita pelas entidades médicas estando aprovado para sua execução.

Como todo novo procedimento médico, a técnica do SLEEVE começou a ser realizada em maior escala e a cada congresso novos resultados animadores são apresentados fazendo com que mais cirurgiões realizem o procedimento pelo mundo e atestem o sucesso do procedimento. Hoje , o SLEEVE representa aproximadamente 30% das cirurgias realizadas pelo mundo.

Bem , após este breve histórico, vamos partir para o nosso combate : Qual a melhor técnica afinal ? Acho que para responder esta pergunta devemos discutir um pouco as vantagens e desvantagens de cada método.

O “BY-PASS” é a técnica mais clássica para o tratamento cirúrgico da obesidade, foi concebida em 1984, ou seja , temos uma enorme experiência no acompanhamento e nos resultados deste procedimento. Atualmente representa 70% da cirurgias realizadas no mundo, e isto não é a toa, apresenta excelente resultado em perda de peso com menos conseqüências para o organismo do paciente, motivo pelo qual se tornou a cirurgia considerada padrão.

Quando falamos em resultado, temos a expectativa de perda de peso em torno de 80 a 90 % do excesso de peso no “BY-PASS”. Os resultados iniciais do “SLEEVE” nos primeiros anos tem se mostrado muito semelhante, porém não temos a experiência de seguimento destes pacientes por tantos anos como o “BY-PASS”, ou seja, necessitamos de um acompanhamento maior para podermos atestar com veracidade este fato. Cabe sempre lembrar que o resultado de cada técnica é diretamente dependente da disciplina do paciente.

Milagres não existem e não podemos atribuir o resultado a cada técnica e sim como cada paciente a utiliza para o seu sucesso. As cirurgias para obesidade são coadjuvantes no tratamento, não atuam sozinhas , e portanto podemos esperar resultados ruins nos dois procedimentos. Por este motivo, é óbvio que devemos avaliar com cuidado ao nos depararmos com um insucesso relatado por um amigo , conhecido ou mesmo noticiado pela internet .

Quando levamos em consideração a conseqüência para organismo temos a dificuldade de absorção de algumas vitaminas determinada pela parte intestinal da cirurgia. Por este motivo, os pacientes que fazem o “BY-PASS” necessitam tomar o poli-vitamínico ( Centrum ou Materna ) para suplementar esta dificuldade para a vida toda. Como o “SLEEVE” é um procedimento apenas no estomago, ou seja, não temos a parte intestinal, não irá ocorrer esta questão das vitaminas. Passado os primeiros meses de pós operatório, quando ainda usamos o poli-vitamínico até que a dieta esteja mais completa, este não será mais necessário.

Quando pensamos nas doenças que acompanham a obesidade, principalmente o Diabetes, é sabido que o “BY-PASS” será mais indicado pois na parte intestinal da cirurgia é que ocorrem os mecanismos de cura desta doença, atingindo este resultado em até 92% dos pacientes operados. O “SLEEVE” ,por não ter a parte intestinal, apresenta resultado inferior sobre o controle e a cura do diabetes. Os pacientes que apresentam doença do refluxo gástrico , com muitos sintomas como a “azia” e esofagite diagnosticada pela endoscopia, podem ter estes sintomas piorados pelo “SLEEVE” sendo o “BY-PASS” mais indicado por ser um procedimento anti-refluxo.

Cabe ressaltar também que o “SLEEVE” pode ser transformado na técnica do “BY-PASS” a qualquer momento, ou seja , permanecemos com uma segunda possibilidade de tratamento , uma verdadeira “carta na manga”a ser utilizada.

Por fim, como responda a pergunta deste artigo ? Qual a melhor técnica ?
Acho que a melhor técnica nunca será para todos. A melhor técnica será para cada um, ou seja, vários fatores individuais serão necessários para definir a melhor técnica para cada um : Índice de massa corporal inicial , presença ou não de doenças associadas a obesidade, presença ou não de outras doenças que não estejam diretamente relacionadas a obesidade mas que o procedimento pode ajudá-la ou prejudicá-la e sempre , o desejo de paciente.

O protocolo inicial da nossa clínica ( pode mudar com a experiência ) foi criado respeitando sempre o desejo e o perfil de cada paciente e foi baseado nas publicações médicas mundiais, discussões em fóruns e congressos e na experiência inicial do nosso grupo:

SLEEVE
• Todos os pacientes que desejam o método.
• Índice de massa corporal entre 35 – 42 kg/m2
• Pacientes não diabéticos
• Pacientes sem doença do refluxo
• Pacientes portadores de doenças que contra-indiquem o “BY-PASS”

BY-PASS
• Todos os pacientes que desejam o método
• Pacientes diabéticos
• Pacientes com doença do refluxo
• Índice de massa corporal elevado ( > 42 Kg/ m2 )

Como realizamos a indicação ? O paciente que se encaixa no perfil para os dois métodos será informado na consulta inicial ou na pré consulta em grupo sobre esta possibilidade e as técnicas serão explicadas detalhadamente. Calma ! Não precisa se apavorar ou ficarem preocupados neste momento, a escolha final será feita apenas no momento da marcação da cirurgia. O paciente receberá nosso livreto explicativo, além de poder acessar o site para obter mais informação. Passará pela fase dos exames, que como visto anteriormente poderá direcionar para um ou outro método. Passará pela avaliação da equipe multidisciplinar que orientará cada paciente segundo seu perfil. Poderá participar das reuniões mensais com a equipe e familiares para novas dúvidas e discussões. E, por fim , o cirurgião da equipe que for agendar o procedimento, ajudará o paciente diante do seu desejo e achados nos exames pré-operatórios a escolher a melhor técnica para cada um !!!

Um grande abraço a todos, Dr. Michel Menezes